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No final do século XIX, intensificou-se o processo imigratório no Brasil com objetivo principal de fornecer mão-de-obra para a cultura do café, em substituição ao trabalho escravo.
Entre 1870 e 1907, chegaram ao Brasil cerca de 2.328.585 estrangeiros.
(Fonte: Boletim do Serviço de Imigração e Colonização São Paulo,
Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio, segundo site do
Memorial do Imigrante-SP). Os que vieram "fazer a América" naquele
tempo trouxeram muito mais que seus costumes, idiomas, sobrenomes,
comidas, utensílios, esportes e força de trabalho. As heranças deixadas
por aqueles povos compõem aspectos vivos da cultura brasileira ainda
hoje.
O Memorial do Imigrante resgata um pouco dessa história. O prédio, que
funcionou durante 91 anos como a antiga Hospedaria de Imigrantes da
Capital, foi construído entre 1886 e 1888, para receber pessoas de mais
de 70 nacionalidades – na maioria europeus e asiáticos - que chegavam
em navios a Santos para tentar a vida em um novo país. Sem dinheiro
para custear a travessia dos oceanos, muitos enfrentavam até 60 dias na
terceira classe dos navios, em porões, única condição em que o Governo
do Estado de São Paulo concedia as passagens gratuitamente.
Após o desembarque, os imigrantes eram colocados em um trem no próprio
porto com destino à Hospedaria, que possuía uma estação ferroviária
construída especialmente para esse fim. Caso o horário do trem não
coincidisse com a chegada dos estrangeiros, estes podiam ficar apenas
por uma noite na Hospedaria de Santos, providencialmente
desconfortável, para que os recém-chegados não se acomodassem.
A Hospedaria de Imigrantes tinha capacidade para receber três mil
pessoas. Até sua desativação, em 1978, haviam passado pelo local cerca
de 3 milhões de pessoas em busca de trabalho, terras e melhores
condições de vida. "O ambiente da Hospedaria era bom, porque aqui não
passaram as dores daquelas pessoas, só as esperanças. As dores da vida
em um outro país seriam sentidas mais adiante, nas fazendas", analisa
Plínio Carnier Júnior, responsável pelo acervo iconográfico e pela
organização de diversas exposições no Memorial e autor do livro
Imigrantes: viagem, trabalho, integração, destinado à estudantes do
ensino fundamental.
Os imigrantes permaneciam por até oito dias na Hospedaria. Lá, recebiam
alimentação, vacinas, medicamentos. Muitos também tinham a documentação
regularizada no local. Durante esse período também eram feitos os
contatos de emprego com os fazendeiros. Homens, mulheres e crianças
partiam, então, para nova viagem de trem, com destino às lavouras de
café do interior de São Paulo de outros estados. Poucos permaneciam nas
cidades.
Outros, ainda, iam para os núcleos coloniais e para as colônias. "Os
núcleos coloniais eram compostos por pequenos lotes, vendidos pelo
governo, com o objetivo de instalar imigrantes de diversas
nacionalidades e até mesmo brasileiros. Já as colônias eram iniciativas
dos próprios imigrantes que, na maioria das vezes, abrigavam povos de
um mesmo país", analisa Plínio.
No Memorial, o encontro com esse passado inicia-se logo na entrada. Os
visitantes surpreendem-se com a imponência e beleza do edifício, que
contrasta com as velhas casas da vizinhança. Duas árvores imensas e
frondosas da espécie Ficcus benjamin recepcionam os que chegam. "Elas
podem ser vistas, ainda pequenas, em fotos da década de 30", revela
Plínio, conhecedor dos detalhes das 10 mil imagens que compõem o acervo
iconográfico. O jardim do casarão divide espaço com a exposição de
charretes e carros antigos do início do século, um luxo que não fazia
parte da vida dos imigrantes que chegavam à Hospedaria naquele tempo.
Para completar o ambiente nostálgico, o Bonde nº 38 – da fábrica
britânica Hurst Nelson, de 1912, estacionado à frente do Memorial
percorre o trajeto de 600 metros, até a Estação Bresser, pelos trilhos
da Rua Visconde de Parnaíba. A restauração do bonde respeitou seus
padrões originais. Ele tem capacidade para 35 pessoas. Os passeios de
bonde são realizados aos domingos e feriados, duram 15 minutos e custam
R$ 2,00 por pessoa.
O Memorial do Imigrante é vinculado ao Departamento de Museus e
Arquivos, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Esse
conjunto arquitetônico foi tombado pelo Conselho de Defesa do
Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (CONDEPHAAT)
em 1982. Ao longo do tempo, duas reformas foram realizadas na
Hospedaria. Uma delas ocorreu em 1936, em que foi alterada a fachada do
prédio, que adquiriu características das construções neoclássicas. A
outra mudança aconteceu na década de 50.
Inaugurado em 1998, o Memorial é formado pelo Museu da Imigração
(criado em 1993), pelo Centro de Pesquisa e Documentação, pelo Núcleo
Histórico dos Transportes e pelo Núcleo de Estudos e Tradições. No ano
passado foi criada a Associação de Amigos do Memorial do Imigrante
(AAMI), entidade sem fins lucrativos, responsável pela organização de
eventos e exposições.
O Memorial oferece diversas exposições aos 15 mil visitantes que recebe
todo mês, com destaque para estudantes, grupos escolares, pesquisadores
e descendentes de imigrantes. O acervo é formado por diversos tipos de
documentos textuais que incluem listas de bordo dos navios, livros de
registro de imigrantes alojados na Hospedaria, processos
administrativos da Secretaria da Agricultura, processos do Serviço de
Registro de Estrangeiros, fichas de registro dos imigrantes
(mão-de-obra qualificada e currículo), documentos pessoais. Os livros e
periódicos sobre imigração, com ênfase em São Paulo, e diversos outros
assuntos estão dispostos na Biblioteca do Memorial.
Além disso, o Memorial possui um rico acervo audiovisual com
entrevistas de imigrantes de diversas nacionalidades gravadas pelo
Setor de História Oral, vídeos temáticos, fotografias, mapas e variados
utensílios domésticos e pessoais. Parte do acervo é obtido através de
doações dos imigrantes e de suas famílias. (Fonte: Caderno Introdução à
História da Hospedaria de Imigrantes em seus aspectos institucionais e
guia do acervo). O acervo fotográfico deverá iniciar, ainda em
dezembro, a digitalização das imagens que, por enquanto, só estão
disponíveis em negativos.
A Exposição Principal oferece um apanhado geral do processo de
imigração através de textos, fotos, maquetes, objetos pessoais e
ornamentais, roupas, documentos e livros de registro de chegada. Esta
exposição existe há seis anos e, constantemente, as peças são trocadas.
Plínio explica que a exposição das imagens, apoiada nos textos, segue a
seqüência da história da maioria dos imigrantes, iniciando pela
documentação necessária, passando pela despedida da terra natal, o
embarque, o trajeto, a infra-estrutura da Hospedaria, o trabalho nas
lavouras, as colônias, os núcleos coloniais, a vida nas cidades, o
trabalho nas indústrias e outras atividades.
A sala possui ainda terminais de computador que disponibilizam as
entrevistas organizadas pelo Setor de História Oral. Além disso, os
dados dos livros de registro estão sendo digitalizados. As pesquisas
referentes aos imigrantes que desembarcaram entre 1882 a 1930 já podem
ser acessadas nesses terminais.
A Exposição Com o suor de seu rosto apresenta equipamentos, máquinas,
ferramentas e matérias-primas, consideradas rústicas nos dias de hoje,
utilizadas pelos trabalhadores tanto das cidades como do campo, para a
construção de casas, estradas, pontes, móveis etc.
A Sala de Navegação reproduz o clima da viagem nos navios. Há no local
um imenso globo terrestre, que gira assim que o visitante entra na
sala, com todas as rotas de viagem evidenciadas por pontos iluminados.
Além dos diversos tipos de malas, baús e sacos com os pertences,
pode-se ter a sensação de estar dentro de uma cabine da embarcação.
A Exposição Hospedaria de Imigrantes mostra um pouco da infra-estrutura
que o local dispunha para abrigar os estrangeiros. Além de móveis de
escritório, camas, armários, berços e outros objetos, esta sala está
decorada com fotos que traduzem os ambientes e cômodos da Hospedaria. A
exposição da Sala da Diretoria da Antiga Hospedaria de Imigrantes
apresenta móveis produzidos pelos estrangeiros que freqüentavam o Liceu
de Artes e Ofícios de São Paulo.
Ainda no piso térreo do Memorial acontece a exposição temporária O
Incário – presença peruana em São Paulo, com objetos dos rituais,
esculturas, roupas, mapas, artesanato, fotos, postais e bandeiras que
representam a cultura desse povo.
A exposição São Paulo Antiga, no segundo andar do edifício, apresenta a
cidade no início do século XX com o aparecimento de diversos bairros,
indústrias e comércio. Além da reprodução de uma "pharmácia", pode-se
observar fotos ampliadas do centro da cidade (gigantografia), bonecos
representando vendedores de frutas e calçamento de paralelepípedos.
Para completar o cenário, são reproduzidos os sons da cidade na época.
São Paulo de Toda Gente é o resultado do trabalho da artista plástica
Suzy Gheler . Ela homenageia todos os povos que chegaram ao Brasil a
partir do final do século XIX, através de bonecos representantes dessas
nacionalidades.
Na lateral do prédio principal, onde funcionavam originalmente a
agência de correio, estão duas exposições. Para os que não conhecem a
vida no campo, a Fazendinha de Café mostra mudas dessa planta,
cultivadas com o auxílio da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz
(Esalq), de Piracicaba, com acesso a um casebre de um trabalhador rural
imigrante. A outra exposição é do Espaço Ecumênico com livros de rezas,
bíblias, imagens sacras e móveis da antiga capela da Hospedaria,
demolida em uma das reformas do edifício.
Na outra lateral do prédio principal localiza-se a antiga estação
ferroviária, peça-chave do processo de imigração, composta pela
plataforma de embarque-desembarque de passageiros. Foram restaurados
dois carros (vagões) - um de bagagens e do chefe do trem e outro de
passageiros - ambos expostos à visitação.
Com o apoio do Núcleo Histórico dos Transportes do Memorial, os
visitantes podem, ainda, passear em duas locomotivas a vapor da década
de 1920, totalmente restauradas. A Pacific 353, conhecida por "Velha
Senhora" e a Nº 5, apelidada por "Marta" por seu restaurador. O
percurso é de cerca de um quilômetro. Uma outra locomotiva e dois
vagões ainda esperam para serem restaurados nos fundos do prédio do
Memorial.
A estação ferroviária também abriga espaços expositivos. Um deles é a
Sala do Chefe da Estação com móveis, fotos, documentos, equipamentos,
objetos e roupas coletados das antigas companhias ferroviárias de
diversos lugares do país. Há também uma exposição temporária, montada
por Plínio Carnier Jr, chamada Os Antônios... marias, josés e joões,
exclusivamente com fotos pessoais dos imigrantes. Segundo Plínio, a
intenção foi prestar uma homenagem aos que vieram para cá, através de
suas expressões faciais. O espaço Viagem do Imigrante destina-se à
apresentação do trajeto da vinda dos estrangeiros ao Brasil, desde a
saída de seus países até o desembarque em Santos. Isso é feito através
da exposição de fotos, objetos pessoais, cartas, documentos e
propagandas de diversos países que incentivavam e desestimulavam a
partida.
Além das exposições permanentes e temporais acompanhadas por monitores,
dos passeios de bonde, de locomotiva e dos acervos, o Memorial conta
com outros espaços expositivos como o pátio interno e externo, além de
auditório para a exibição de filmes, com capacidade para 100 pessoas .
Outro serviço oferecido aos visitantes é o fornecimento de certidões e
certificados de desembarque de imigrantes no porto de Santos entre 1882
a 1978.
O Memorial do Imigrante está localizado na Rua Visconde de Parnaíba,
1316, Brás, São Paulo. Está aberto de terça-feira à domingo, das 10 às
17 horas. A entrada custa R$2,00 (adulto) e R$ 1,00 (criança).
Prédio ainda recebe viajantes e pessoas carentes
O prédio que ocupa hoje o Memorial do Imigrante representa apenas 30%
da antiga Hospedaria de Imigrantes. A maior parte do edifício continua
com os mesmos objetivos que possuía até os anos 70. Lá funciona a
Associação Internacional para o Desenvolvimento – Núcleo São Paulo
(Assindes-SP), conhecida como Arsenal da Esperança, uma entidade sem
fins lucrativos de caráter beneficente. O local abriga atualmente 1150
homens que não têm moradia, migrantes carentes – principalmente da
região nordeste - e cerca de 20 refugiados políticos de Serra Leoa e
Angola. Essas pessoas ficam no local, em média, de 6 a 8 meses.
O Arsenal da Esperança é um projeto do Serviço Missionário Jovem
(Sermig), com sede em Turim (Itália) e conta com um convênio com a
Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do Estado de São
Paulo. A instituição é mantida com recursos do Estado e de doações da
comunidade. Além dos 70 funcionários, o Arsenal conta com a ajuda de
100 voluntários, entre médicos, dentistas, universitários e professores.
"O Arsenal da Esperança destaca-se de um albergue comum, pois além de
ajudar pessoas com problema de moradia, oferece aulas de alfabetização
e cursos profissionalizantes visando a reintegração dessas pessoas ao
mercado de trabalho e à sociedade", salienta Jean Franco, um
missionário italiano que está no Brasil há quatro anos e um dos
administradores da instituição.
Todos os dias cerca de 40 pessoas são cadastradas pelos
assistentes-sociais. A entrada dos freqüentadores começa às 17 horas.
Além de dormitório com lençol, travesseiro e cobertor, os moradores
recebem toalha e sabonete para o banho antes do jantar. No outro dia de
manhã, após o café, eles saem à procura de emprego. Alguns permanecem
no local para participarem das aulas ou de atividades esportivas e
culturais. Atualmente, o prédio passa por reformas com o objetivo de
ampliar o atendimento à esses carentes, bem como para melhorar a
infra-estrutura do lugar.
Fonte: ComCiencia
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